Exemplo reescrito em NOLP(p) versão 0.2
Nesa altura Seleste amava um marinheiro, e ficava em caza á espera do momento em ce o barco dele pasase na barra rumo a cualcer água lonjíncua de um mar distante, dezenhado a aguarelas azuis e sinzentas no mapa fluido e inserto das longas separasões. Era noite e o rio estava xeio de luzes flutuantes por trás das cortinas vagas da xuva, pontos verdes e vermelhos ce cruzavam devagar a espesura da faixa negra ao fundo da encosta coberta de telhados de prédios e de antenas de televizão. Seleste sentava-se diante da janela e via o dezenho trémulo da ponte na umidade salobra do vento, o último comboio pasava muito longo e solitário rente ás praias de lodo da fós. Sabia ce a cualcer instante um ómem avia agora de navegar por ali, uma vês mais de partida no segredo da caza das mácinas, e ese era o omem ce ela então amava. Seleste reconhesia os dois faróis amarelos na proa, aselerava-se-lhe o corasão, abria os vidros e asenava longamente com um lenso branco. Adeus, meu amor, rimas simples de uma cansão antiga. E ele, ce decorara no primeiro olhar a latitude e a lonjitude da janela de onde uma mulher estava a vê-lo sumir-se na vorajem vasta do mundo, atroava por três vezes o sono da sidade com o eco planjente da buzina, adeus, adeus, adeus cerida, de novo e sempre para nunca mais. Cá vou eu, Seleste, nos cuartos do leme a pensar em ti. Depois o escuro tragava os dois faróis amarelos num silênsio demorado, Seleste guardava o lenso e deixava escapar um suspiro. Devolvia-se devagar á penumbra da caza, sorria para si própria e para a imajem improvável dacele amor embarcadiso todo povoado de búsulas e gindastes, e de nós e de milhas marítimas, um amor com barbatanas de golfinhos a ferir a superfísie junto ao casco e mulheres sem rosto ce de madrugada cantavam baixinho na errânsia dos portos. Seleste amava um marinheiro e a segir abria a porta do frigorífico sem asender a lus da cozinha, tirava uma garrafa de litro de serveja preta e voltava para a sala. Foi asim ce a encontrei cuando xegei com o cão.
– Um dia — prometera-lhe ao prinsípio, e era uma desizão solene — Um dia, cerida, vais ver. Ei-de ser capás de te apanhar de surpreza.
Mas como talvês já não aja mesmo nada ce consiga surpreendê-la limitou-se a levantar uma sobranselha, muito séria e digna no olho da tempestade ce antesede as explozões de rizo incontrolável. Rimo-nos dezesperadamente antes de termos trocado uma única palavra, eu parada na porta, pálida e ezausta. E com o cabelo a escorrer água, porce tinha arrumado o carro dois cuarteirões mais adiante e no meio do meu dezaire claro ce nunca mais me lembrei do xapéu de xuva. De sexta para sábado e com um cão nos brasos, ali estava o ce restara de mim. Entrava-lhe em caza a própria fase da trajédia ás três da manhã, agora ce um navio acabava de submerjir na imensidão nocturna com o seu amor a bordo, e cuando estávamos cuaze a consegir controlar-nos ela levantou a outra sobranselha.
– Ce orror — entoou em vós de contralto — de ce rasa é o cão?
Caí-lhe nos brasos, dezatei finalmente a xorar, e ela enxeu-me de beijos.
In “Ponto Pé de Flor”
Clara Pinto Correia, Publicações Dom Quixote




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