Temos pena
( tópicos focados: justiça, política, sociedade )
Há uns dois dias, na Vidigueira, um grupo de praticantes de “Airsoft” envolveu-se numa iniciativa para entregar bens de primeira necessidade à Loja Social que apoia famílias carenciadas. Cada um trouxe o que pôde. Bens alimentares, de higiene e roupa. Todos se sentem bem. Vão para casa a achar que são umas excelentes pessoas, caridosas e preocupados com o próximo. São todos uns heróis.
Ultimamente (e para além do já tão conhecido Banco Alimentar) têm-se multiplicado iniciativas do género um pouco por todo o país. Confesso que por vezes quase vou na onda. É difícil recusar este tipo de coisas. É certo que passo a vida a juntar livros, brinquedos e roupas várias, que envio para Cabo Verde ou que distribuo por instituições de solidariedade social diversas. Mas é diferente. Trata-se de reciclagem e de evitar o desperdício.
Agora, a caridadezinha e a esmolazinha fazem-me comichão. E cada vez tenho mais facilidade em dizer que não às mãos que se estendem (tantas vezes!) à minha passagem na busca de uma moedinha, às meninas estrategicamente posicionadas nas grandes superfícies que vendem brindes em troca de algum dinheirinho para a instituição x, y ou z, às iniciativas que visam arrecadar bens de primeira necessidade para os carenciados.
Não é que tenha algo contra os carenciados. Pelo contrário. Acho que se lhes deve prestar todo o apoio possível. Mas também acho que essa tarefa cabe ao Estado, o que é o mesmo que dizer que nos cabe a todos nós, mas por intermédio dos órgãos executivos do Governo. Cabe-nos a todos nós, enquanto cidadãos contribuintes. Cabe ao Governo gerir essas contribuições por forma a suprir as carências existentes.
Eu faço as minhas contribuições direitinhas e não fujo ao fisco. Portanto, já cumpro com todas as minhas obrigações. Não tenho nada de andar a fazer caridade, nem angariações, nem a dar esmolas ou donativos.
E é isso que eu digo às pessoas. E quando me respondem “Áh e tal, mas o Estado não ajuda nada…se não forem as pessoas a gente até morria à fome…” eu respondo “Pois é verdade sim senhor. Mas está nas nossas mãos mudar isso. Nós temos escolha e poder de decidir. Mas pelos vistos as pessoas decidem sempre manter tudo na mesma, portanto, depois, se faz favor, não se queixem!”




5 comentários:
Na Polónia, o contribuinte pode dar 1% do valor que recebe do IRS para qualquer instituição de solidariedade à sua escolha.
Para o Rui Vilela.
Por cá também pode indicar na declaração de IRS. Não é 1% mas….
http://umahoje.blogspot.com/2009/02/solidariedade.html
Para a Sandra.
Parabéns pelo post. Sou da mesma opinião.
Já agora (se quiser) veja.
http://umahoje.blogspot.com/2007/12/banco-alimentar-contra-fome.html
Mas Rui, isso leva-nos ao ponto que a Sandra focou: à caridade. A Segurança Social deve funcionar como um seguro (daí o nome) para o qual todos contribuímos e que auxiliará todos os que necessitem. É como qualquer outro seguro, os segurados pagam para que, quando o azar bate à porta, haja uma reserva de capital para reparar os bens perdidos.
Portanto, se fazemos a nossa contribuição a tempo e horas, não nos venham depois estender a mão para ajudar este e aquele: já demos! Se não estão contentes com a distribuição que o estado faz das nossas contribuições, têm bom remédio — quando são chamados a decidir, vão lá por a cruzinha no papel em vez de irem para a praia ou para o shopping. Há dois milhões de pobres em Portugal? Chegam para decidir qualquer eleição.
O António tirou-me as palavras da boca.
E em Portugal podes doar não 1% do teu IRS para uma instituição de solidariedade social mas sim 5%. O problema é que eu não quero doar nada. Quero que as minhas contribuições sejam bem geridas e em função do bem público.
É claro que para isso é preciso ter um governo preocupado com estas questões. Que não tem sido o caso e pelos vistos, quem se queixa também não pretende mudar nada.
Pois é, em Portugal não é 5% que se pode doar, mas sim 0,5%.
Bem me parecia que algo não me sova bem.
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